Miguel Beirão, Tiago Jacinto e Paulo Marques

Os sucessos <br>dos vendedores algarvios

A tarde está prestes a terminar. Três jovens militantes da JCP aproximam-se do Fórum Algarve, em Faro, carregados com dezenas de exemplares do Avante! publicado naquele dia. Pessoas entram e saem, entre o movimento de lojas e restaurantes. À porta, os jovens dirigem-se a quem passa, valorizando o jornal e os temas desenvolvidos naquele número. A princípio poucos compram, mas passada meia hora as vendas aumentam. É então que se aproximam os seguranças, pedindo para se retirarem. Eles recusam-se, argumentam que estão fora do centro comercial e lembram que existe um parecer do Tribunal Constitucional que define que é legal a venda em todos os espaços públicos. Os seguranças insistem, os jovens pedem para ser levados à administração. Se até aqui o desenrolar da história era previsível para qualquer activista comunista, o desfecho será menos. Menos previsível e muito mais agradável.
«No percurso entre a porta e a administração fomos rodeados por seguranças, como se tivessemos roubado alguma coisa», lembra Miguel Beirão. A conversa com um administrador que se seguiu durou cerca de uma hora. «Com a força dos nossos argumentos e das nossas convicções, o senhor ficou sem razão. Até entrámos um bocado na brincadeira com ele: “Vocês baptizam este sítio com a palavra ‘fórum’, falam em participação e nas pessoas, dizem que querem tornar isto no centro da cidade e depois impedem a liberdade de expressão? Falam da função social das empresas e querem impedir-nos de exprimir a nossa opinião, ainda por cima o Avante!, grande exemplo da luta pela liberdade e pela democracia? Não é uma decisão um pouco ditatorial, procurando estar à parte da realidade?”», conta Paulo Marques, membro da Comissão Política da JCP.
O administrador usa a propriedade privada como argumento. «Sempre com respeito e educação, fomos respondendo: “Mas isso significa que, se entrar em propriedade alheia, me podem fazer tudo o que quiserem? Mesmo num espaço privado, há leis gerais e direitos fundamentais. Falámos sobre a Constituição e o senhor perdeu os argumentos. Sem saber o que dizer e não conseguindo impedir a venda, comprou um Avante!. “ Se é por isso, até eu compro”, disse ele.»
O administrador paga um euro e dez cêntimos e fica com um exemplar do jornal. De regresso ao centro de trabalho do PCP, os jovens comunistas lamentam as vendas que poderiam ter feito à porta do centro comercial durante aquele tempo, mas ficam satisfeitos com a vitória. Nessa noite realiza-se em Faro um jantar comemorativo do 75.º aniversário do Avante!. Velhos camaradas recordam histórias da clandestinidade. Miguel Beirão conta o que se tinha passado uma hora antes.
Lembrando aquele dia, Tiago Jacinto, da Direcção Nacional da JCP, valoriza a motivação que sentiu com a venda do Avante! ao administrador do Fórum Algarve. «É uma prova de que conseguimos chegar às pessoas. É de continuar», salienta. «Isto prova que, mesmo em situações que podem parecer difíceis, podemos conseguir resultados. Com esforço, dedicação e trabalho o Avante! até se vende aos administradores», acrescenta Paulo Marques.

Leitores

Tiago Jacinto participa frequentemente em vendas do Avante!. Mas, mais do que vendedor, ele é leitor. «É um jornal diferente. Tem informação que os outros não têm, como a luta de trabalhadores nas empresas. É um jornal bastante completo... e serve para a nossa formação ideológica.»
Paulo Marques valoriza «o Avante! como instrumento que utilizamos para conhecer questões que nos permitem ir ao confronto no dia-a-dia, na conversa. Quando nos perguntam sobre problemas concretos, sem o Avante! temos muito mais dificuldade em responder. Há muitos materiais do Partido, mas é muito importante a regularidade do Avante! para dar resposta. Um quadro da JCP que leia o Avante! está muito melhor armado para o combate. É o nosso aliado.»
Miguel Beirão considera que «o Avante! é um jornal que nos educa e nos dá muita informação. Mostra a nossa realidade, põe o dedo na ferida. Antes de o ler era mais pobre. Hoje sou muito mais rico em informação, é uma grande escola. Tive a felicidade de me apresentarem o Avante!... e casei com ele. E é um bom casamento.»
O jovem militante recorda o dia em que os colegas se interessaram mais do que o habitual pelo jornal que tinha na sua secretária. «Andavam por ali e todos deram uma vista de olhos. O meu director apercebeu-se e, na minha ausência, deitou o Avante! no lixo. Depois fui falar com ele e desmentiu que tinha sido ele, mas colegas garantem que foi. É sinal que o Avante! mexe com muita gente. Mesmo sem o ler, o meu chefe dá-lhe valor.» O valor da união e do esclarecimento dos trabalhadores.


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Estórias da história do <em>Avante!</em>


A história do Avante! faz-se de pequenas e grandes histórias, de leitores e de jornalistas, de vendedores e de observadores. É um percurso longo, de 75 anos, mas acima de tudo sólido, como mostram os dois episódios que contamos neste número. Juntamos passado e presente e na soma encontramos indícios do futuro do nosso jornal.

Uma imagem de criança <br>que ficou para sempre

António Colaço é militante do Partido de longa data. Jornalista reformado, foi chefe de redacção adjunto do Diário Popular até ao fecho daquele órgão de informação. No já longínquo ano de 1937, ainda criança, presenciou a prisão de um comunista na rua onde morava em Lisboa, acontecimento que marcou toda a sua vida. Anos...